Acho que chegou o inverno. As noites estão mais compridas, os dias cinzentos e chuvosos. Os lençóis gelados já não são mais conforto para a pele febril, e sim trazem aquele leve arrepio por todo o meu corpo. A cabeça pesada, cansada tenta descansar sobre o travesseiro, calmamente fechando os olhos, aproveitando todo o prazer de finalmente estar em casa. De finalmente poder esquecer tudo e ver minha mente fechar-se em escuridão. Sem sonhos, sem pensamentos masoquistas. Só eu e minha cama vazia. Vazia de você. Acordei com aquele leve pressentimento de que o dia ia ser diferente, não sei. Aquela estranha sensação de que algo muito bom — ou muito ruim — virá a ocorrer.
Acordei no meio da noite, sonolenta, coçando os olhos, mexendo no longo cabelo ruivo que eu agora possuía. Ouvia o meu telefone tocar de longe, — quem seria a uma hora dessas? — e levantei para atendê-lo. Franzi o cenho ao ver teu número. Estranho, incomum. Mas acima de tudo, por que agora?
— A-alô? — falei com a típica voz rouca de quem acorda, mas estranhamente já falou demais em sua cabeça.
— Alice? — era você mesmo. A voz aveludada, transtornada.
— Sim?
— Sabe quem é? — como eu poderia não saber? Como eu poderia ter esquecido aquela voz que sinceramente, deveria ser usada para qualquer dublagem? Que deveria tocar nas rádios de tão bela?
— Não… — eu não poderia te dar esse gosto. Não, não esse gosto de saber que ainda tenho seu número em meu celular, que a mesma música estúpida ainda toca, ainda me lembra de tudo.
— Ah! Ãhn, é o L-Lucas.
— Lucas? Ah, sim. Olá, Lucas. Por que me ligas tão tarde?
— Não sei, senti sua falta.
— Ah, como está sua namorada?
— N-nós terminamos, mas e você, sentiu a minha? — todos os minutos, de todas as horas, de todos os dias.
— Andei ocupada sabe?
— Sim, entendo. Bom, eu senti falta da minha melhor amiga. E do que mais nós fomos.
(Silêncio)
— Você desligou?
(Silêncio)
— Tudo bem, eu entendo, eu também desligaria. Eu fui um idiota mesmo. Um idiota que agora está conversando com a linha muda. Eu queria ter tido a coragem sabe? Eu te chamei de covarde, quando eu também tive medo. Por que a gente tem que ser assim? Me diz? Ah, é, você não pode dizer, você desligou, porque eu sou um babaca que liga às três da manhã pra mina que é apaixonado há anos e nem lembra mais dele.
— Lucas, — respirei fundo — a gente só é assim sabe?
— Você não tinha desligado e… Por que não respondeu?
— Eu não tinha resposta.
— Mas… por que tem que ser assim?
— Porque, a gente não funciona querido. A gente serve mais para se machucar do que qualquer outra coisa.
— Você está soando que nem minha mãe. Você mudou… está calma, a voz arrastada. Você me faz bem, sabe? Ouvir tua voz… me fez bem.
— A vida nos molda. Lucas, você também me fazia bem e…
— Fazia?
— É, as coisas mudam…
— Você não sentiu mesmo a minha falta?
— Senti tudo bem? Mas o que muda, Lucas? Eu cansei disso. Desse drama, desse teatro. Eu cansei de tudo isso. Eu cansei de sofrer, entende?
— Muda tudo. Você ainda é apaixonada por mim? Não deixa esse orgulho te sufocar…
(Silêncio)
— Tudo bem, não responde, mas pelo menos me escuta. O que eu vou dizer agora, — pude ver a imagem dele lambendo a boca antes de terminar a fala — eu levei muito tempo pra tomar essa coragem de dizer.
— Lucas, eu…
— Por favor, Alice. Por favor. Me deixa falar. — aquela voz grossa se esganiçando, derretendo aos meus pés, implorando por meus ouvidos mais uma vez.
— Vá em frente.
— Eu passo o tempo inteiro pensando em ti. Literalmente. Você é meu primeiro pensamento quando eu acordo. É torturante sabe? Eu te tive, mas eu te deixei ir tão fácil. Você tinha razão, eu não lutei por você. Eu não insisti. Eu sabia que você precisa se sentir amada, você precisava ver que podia confiar em mim, mas eu achei tanta besteira. Eu achei tão… Idiota. Eu te amava, o que mais você poderia querer? Você só queria eu… e eu entendo isso agora. Agora, que é tarde demais.
Ele fez uma longa pausa, como quem quisesse engolir todas aquelas palavras de volta. O telefone fazia chiados estranhos, supus que fosse sua respiração agitada, ou o bater dos dedos contra o mesmo. Ele tinha essa mania de ficar com as mãos inquietas cada vez que o nervoso o atingisse. Eu não conseguia pensar direito. Ele estava do outro lado da linha, dizendo tudo que eu sempre quis ouvir, fazendo todas aquelas coisas que eu sonhava, mas eu me sentia cética sobre tudo isso. Eu sabia que o amava, mas agora… agora havia esfriado. Mesmo assim, o meu estômago revirava, e eu não me sentia muito bem. Me notei chorando baixo, prendendo a respiração para ele não ouvir, quando ele continuou:
— Mesmo que não seja como minha, volta para mim? Volta a ser a única pessoa que eu posso confiar. Eu falo sério, eu me sinto sozinho e abandonado sem você aqui. E sabe, essa dúvida me mata. Você aparenta estar criando mais e mais perguntas, e apagando todas as minhas certezas. Me dá algo pra me prender, pra me fazer sentir melhor….
— Lucas, mas que droga…
— Você está chorando?
— Eu preciso de ti, tudo bem? Eu preciso de ti mesmo. E aqui também tá um inferno. Eu continuo fingindo que tá tudo bem, mas a noite me mata. Falta algo, falta tudo. Falta você. E isso não tá certo. Onde foram parar todas aquelas promessas? Todo aquele carinho e compreensão que nós sentíamos? Há algum tempo atrás, comecei a me lembrar de tudo que a gente passou. Lembra quando eu machuquei todo o meu joelho por sua causa? Eu ainda tenho a cicatriz. Na verdade eu adquiri tantas cicatrizes por sua causa, e elas tão doendo agora sabe? Meu coração, eu gostaria que você estivesse aqui para ouvir… ele tá acelerado demais. E… bom isso faz elas saltarem. Eu digo, as cicatrizes, não meus peitos. Por favor.
— Engraçadinha, adorei a piada. — ele riu. ótimo. Aquela risada, foi o ponto final.
— E meu orgulho, sabe? Eu não sou capaz de pisar nele desse jeito. É como se eu estivesse usando um salto agulha, e puf, explodiu. Ele faz parte de mim, ok? Ele é como um grande tumor que tá preso e…
— Vai direto ao ponto.
— E-eu…. te amo. — falei sussurrado.
— E-eu.. também. — ele falou mais ainda. […] Camila Reis